A Primeira - Parte IV

27 - setembro - 2008

PROBLEMAS COM A CÂMERA

A música era triste. Coincidência ou não, a trilha sonora que rolava dentro do carro, naquele instante de apreensão, era algo down, tristonho. Para não dizer funesto.
Pouco antes de entrarmos em Feira de Santana, Ricardo descobriu uma pane na parte elétrica da sua Canon (“Primeiro parou o foco automático, depois começou a dar erro se eu mexia no zoomâ€. Foi o que ele me explicou mais tarde.). Cara, eu juro que percebi o mundo dele ruindo naquela hora, juro. Era como se a viagem houvesse terminado para o nosso fotógrafo – e mal – antes de ter começado de fato. Dava para imaginar, era a sua arte que estava comprometida. Seu dom não encontraria instrumento para se exercitar: sim, Ricardo perdera um de seus órgãos. E, no meio da estrada, não havia perspectiva de doadores.
Tudo isso passava pela minha cabeça, que tentava simular o que se passava na cabeça dele. “A viagem perdeu o sentidoâ€, pensei. “A viagem perdeu o sentidoâ€, ele falou. Velho! Depois dessa, por mais que eu me mexesse, não encontrava mais posição confortável naquele banco de automóvel. Estávamos na parte de trás, ele e eu. Ele, com a câmera na mão, realizando uma série de testes, a expressão cada vez mais grave; eu, com a maior cara-de-pau, tomando notas, o desconforto crescente. Já tinha percebido à léguas que palavra alguma o consolaria.
E eu tinha uma vantagem em relação a todos ali no carro. Fabinho, Henrique e Ricardo dependiam de aparelhos que, caso falhassem, poderiam interromper por completo os seus trabalhos: o sistema de som do veículo (o toca-discos…), a filmadora, a câmera. Eu, que só utilizava um bloco de notas e uma caneta, ainda que não os tivesse, contaria com a memória que, embora deficiente, seria capaz de, mais tarde, ajuntar algumas palavras e passá-las adiante. Essa “vantagem†me torturava…
Mas, a viagem seguiu assim mesmo. E ficamos lá, os quatro, à espera de um milagre.
MARINHEIROS…

Erramos feio o caminho. Na tentativa de alcançar a BR-116, Fabinho, que conduzia o seu Quase-CrossFox preto na ocasião, pegou um retorno que nos levaria de volta a Salvador (Deus é mais!), provavelmente orientado por algum dos desorientados que o acompanhavam. A função de navegador era revezada por todos, mas, cá pra nós, muito mal desempenhada. Sonhadores, nossos pensamentos estavam longe, misturados com a paisagem; ninguém, mesmo que inconscientemente, queria ficar “viajando†no mapa. E olhe que, como vocês vão poder conferir depois, foi melhor assim. Muito melhor! Mas, não houve jeito; foi preciso retornar um trecho. Achei até bom, porque pude perceber os muitos espigões que pululavam por Feira de Santana.
Paramos para pedir informação a um homem que seguia com sua bicicleta. Falando de BRs como quem trata de ruas e avenidas, indicou-nos um viaduto e, com alguma precisão, nos disse que Serrinha distava dali 70 quilômetros (Serrinha fica no caminho para Tucano). Coordenadas tomadas, prosseguimos com a viagem.
DIA DOS MAÇONS

Na estrada, um outdoor me chamou a atenção. Dizia mais ou menos o seguinte: “20 de Agosto. Dia dos Maçons. O único dia em que eles fazem questão de aparecerâ€.
RUMO A TUCANO

Parecia que agora acertávamos. O problema (Para mim não era problema algum, pelo contrário, deixava a viagem mais instigante. E também aumentava o consumo de combustível…) eram os muitos desvios, encruzilhadas e trocas de pista; ao menor descuido, o carro enveredava pelo caminho errado. Ricardo teve a cautela de organizar um roteiro, mas este somente foi seguido nos primeiros quilômetros.
Enquanto passávamos por Santa Bárbara, Serrinha, Teofilândia e Araci, a caminho de Tucano, ele insistia com a sua câmera: girava ali, apertava aqui e nada. Girava lá, apertava cá e nada. Girava, apertava e nada. E nada. E nada. Nada! Oh, aflição!
Intimamente, todos torciam por que ela voltasse logo a funcionar. Tenho certeza!
Como não haveria paradas nesse trecho, o jeito era cada um se entreter como podia: entre uma tentativa e outra de fazer sua câmera voltar a funcionar, Rabello estudava enquadramentos com o auxílio das mãos; meditamos sobre o formato da Bahia, seus limites, que muito se assemelham aos do Brasil (Obra do acaso? Ou algo deliberado? Ainda não consegui qualquer informação sobre esse fato, mas, tão logo a encontre, será postada aqui no blog. Se o leitor souber algo a respeito, e quiser colaborar, por favor, entre em contato conosco!); falou-se em Teoria dos Fractais para explicar o caso. Até o biscoito Maria foi objeto de reflexão (!): uma certa empresa alimentícia conseguiu, após 134 anos, atualizar a “iguariaâ€, deixá-la com um aspecto mais “século XXIâ€: agora, o biscoito pode ser encontrado em três sabores Zero trans – tradicional, chocolate e baunilha –, e houve uma modernização discreta no seu desenho. Mas, claro, ele ainda permanece redondinho, redondinho. Um clássico!
Por falar em biscoito Maria, alguém reclamou do desconforto causado pela relativa onipresença dos sacos de compras. A solução, deram-na imediatamente: comer uma parte, para esvaziar o carro. Como ando meio natureba, aquelas embalagens de biscoitos, chocolates, salgadinhos e afins me deixaram um tanto perturbado. Pareceram transfigurar-se todos em exemplares da muitas vezes estranha culinária chinesa: uma aglomeração de vermes, insetos e outras bizarrices vivas, que se remexiam, repugnantes, enquanto não eram devoradas por algum insano (O que é a cultura, minha gente!). A alucinação durou pouco. Muito pouco até; logo parei com a frescura e me entreguei aos prazeres, fatais, da comida industrializada. Só tem tu, vai tu mesmo! Humm…

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