Os quatro “termômetros†instalados dentro do carro começaram a suar, o que indicava elevação da temperatura. Sua leitura era bastante óbvia: quanto maior fosse a quantidade de lÃquido excretado, maior seria a temperatura ambiente registrada (ou vice-versa). E, como a transpiração coletiva era intensa, o calor, “deduzia-seâ€, beirava os limites do suportável (Me fez tirar a camisa! E posso dizer que, no meu caso, isso significa muito!). O sol já ia alto, num dia sem nuvens, e o próprio clima do local contribuÃa para aquela quentura (Some-se a isso o aquecimento generalizado do planeta…). Resolvemos, então, que pararÃamos no primeiro lugar que surgisse, tamanha a nossa necessidade de ar fresco.
Descemos em Jorrinho, sem saber onde estávamos; a localidade não constava no mapa (No nosso mapa!) e foi necessário perguntar aos nativos que pedaço de chão era aquele (Detesto ter que fazer isso. “Qual é a desses playboys? Pensam que a gente mora no nada, é?†– segundo imaginava, era isso o que lhes devia passar pela cabeça com uma pergunta dessas.). E o ar não estava fresco…
Circulamos por um largo que descobrimos ser a praça principal. Era rodeada de “bares-restaurantes-pizzariasâ€, quiosques de sorvete e barracas de artesanato – ou de artigos Made in China. Aquilo ali deveria ser, para a população local, a ferveção dos finais de semana. Literalmente: a praça ficava abaixo do nÃvel da estrada, o que dificultava a circulação do ar, e, como se já não bastasse aquele calor dos diabos, havia ainda quem estivesse disposto a cozinhar as carnes debaixo de chuveiros de água termal.
Reparei com curiosidade como os homens e mulheres ali tinham os corpos bem cuidados. Acredito que aproveitavam a oportunidade – única? – para se exibir em trajes de banho. (Rá! “Trajes de banhoâ€! Minha avó tem outro nome pro que se usa hoje em dia, rapaz…) De fato, aquela pracinha devia estar para eles como a Praia de Copacabana está para os cariocas, ou o Porto da Barra está para os soteropolitanos – se não quisermos sair da Bahia.
Viagens
Um Calor Dos Diabos
Um Milagre da Esperança (OU ESPERANZA?)
Era a primeira vez que a ouvia e achei curiosÃssimo uma artista norte-americana ser assim tão “tocada†pela musicalidade brasileira. Logo nos primeiros segundos já era possÃvel, mesmo aos leigos (Eu!), identificar uma sonoridade familiar… “Essa que é Esperanza Spalding, de quem vocês tanto falam?! Mas, desse jeito, tão…brasileira?! E cantando em português?!†A música era “Ponta de Areiaâ€, de Milton Nascimento e Fernando Brant; fiquei orgulhoso. Orgulho bobo, ufanismo puro: embora muito aprecie, ainda (Ainda…) não sou, digamos, conhecedor de música, gringa ou brasileira. Sou um ouvinte, apenas.
Mas comecei falando de Esperanza, porque eram a sua voz e o seu baixo que marcavam o compasso da viagem quando um milagre aconteceu: a teima de Ricardo em fazer sua câmera voltar a funcionar logrou êxito! Depois de tanto gira-e-aperta, o esperançoso fotógrafo pôde, enfim, dar seus disparos de alegria, com a certeza de que alguma imagem seria registrada. Ficamos nos perguntando como acontecera. Um outdoor que nos acompanhou durante toda a viagem pareceu oferecer a resposta: “Viva com esperançaâ€, recomendava. Era da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Mais uma “coincidênciaâ€, numa viagem de muitas “coincidências 
(E aÃ, Rabello? Vai se converter?)
gia dình
Esse vÃdeo é tipo “vamos começarâ€. ImpossÃvel traduzir a expectativa dessa viagem – que não tinha um “pra quêâ€, pelo menos pra mim. O que significava juntar umas coisas, olhar dicas de viagem na Internet, pedir folga no trabalho, se não tÃnhamos sequer um porquê concreto? E não tÃnhamos mesmo. Agora que voltamos, encontramos mais razões do que esperávamos. Essa viagem tinha que acontecer, principalmente pra nos abrir novos horizontes sobre o que realmente queremos pra nossas vidas. Quem sabe explorando o site, você possa sentir algo parecido?
“gia dìnhâ€? InÃcio em alguma lÃngua pouco conhecida… achei exótico e escolhi como nome. O que você queria? Um conceito já pronto?
Trilha Sonora - Parte II
Chegamos ao lado OUT da nossa viagem musical. Punk Revival, Rock n’ Roll, Cool Jazz, Reagee, Blues e Folk levam esse lado da trilha sonora. O lado que atinge mais o corpo do que a mente.
Juliette And The Licks abre a trilha com um som fantástico digno de suas maiores influências do Punk como Stooges e Black Flag. Punk Revival, como é chamada a nova geração do Punk que inclui bandas como Green Day, Offspring e Bad Religion. E cá entre nós, Juliette faz muito melhor que esses caras. Nada mal para uma hollywood star.
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Medeski Scofield Martin & Wood vem em seguida? Pôôô!! Já tô começando a achar essa trilha tendenciosa afinal sou muito fã de Medeski, um monstrinho dos teclados, principalmente depois que resolveu lançar um trabalho com outros três jazzÃsticos que parecem ter cinco cérebros, cada um.
O disco desse quarteto, Out Louder, é demais. É tão bom que atinge as mais diversas tribos do Jazz, Reggae, Rhythm Blues e Rock. Até Paul Mccartney concedeu a regravação de Julia. Podem conferir que ficou linda.
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Partimos agora para Maria do Céu, uma das maiores revelações brasileiras do novo século, regravando um clássico de Bob Marley. Os fãs podem me matar mas eu preciso afirmar que a regravação de Concret Jungle ficou melhor do que a original. Bob, desculpa aê.
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E agora? Eddie Vedder pediu encarecidamente a Sean Penn para compor a trilha sonora de seu filme que conta a incrÃvel história de um jovem americano que, revoltado com a sociedade, larga tudo e parte numa jornada pro Alaska. Na Natureza Selvagem (Into the Wild) é o nome da obra.
Obra que foi um das minhas maiores motivações para adentrar no Projeto Fuga e não preciso dizer que Eddie Vedder deu um tempo do Pearl Jam pra compor essa trilha com todo o coração. Isso aê Eddie, espero que você aprove nosso projeto também. Yeahhh
Eric Clapton? Pra quê falar do melhor guitarrista de Blues da atualidade!? Tenho até medo de falar qualquer coisinha sobre esse gênio. Só restou a coragem de vincular uma música dele ao nosso humilde projeto.
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Miles Davis? Como assim? Falar do maior nome do Jazz e um dos cinco mais importantes músicos da história? Não dá pra falar, só ouvir.
Tenho que voltar a falar, não é? Não é preguiça, é covardia. Quem sou eu pra falar dessa galera? Como? Não dá!
Em 70, Os Mutantes lançaram A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado e se tornaram a banda mais psicodélica e inovadora do rock nacional. Posto intacto até hoje e, por isso, tem um canto obrigatório na trilha do Projeto Fuga.
A Outside segue com Donovan Philips Leitch que foi um dos poucos a contribuir em trabalhos dos Beatles. Depois disso ele foi altamente pulverizado pela critica mas resurgiu nos anos 90 com bons trabalhos. A polêmica aliada ao talento, aliado ao Projeto Fuga.
Se a Terra é um rádio, qual é a música? É Manguebit. O hit do Mundo Livre S/A foi um dos mais tocados nas rádios pernambucanas e faz parte de um disco obrigatório na prateleira do qualquer brasileiro que tem orgulho da criatividade e capacidade inovadora de seus conterrâneos, Samba Esquema Noise.
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Agora é a vez de Esperanza Spalding, mas eu já escrevi uma matéria inteira sobre ela. A única coisa que quero acrescentar é que um dia ela aceitará um dos meus 834.456.0769 pedidos de casamento, vocês verão.
A trilha encerra com outra música da trilha de Na Natureza Selvagem. Hard Sun, uma declaração de amor ao Sol inabalável. O Sol que esteve sempre conosco durante a viagem:
Quando eu caminho ao lado dela
Eu sou o melhor homem
Quando eu procuro deixa-la
Eu sempre retorno cambaleandoUma vez construi uma torre de marfim
Entao eu podia idolatrar de cima
Quando eu desço escalando pra ser libertdo
Ela me colocava dentro novamente
Existe um grande
Um grande sol dificil
Batendo nas pessoas grandes
No grande mundo dificil
Quando ela vem me cumprimentar
Ela esta à mercê em meus pés
Eu vejo seu charme interno
Ela simplesmente joga isso de volta pra mim
Uma vez eu cavei uma cova nova
Para encontrar uma terra melhor
Ela só ria e sorria pra mim
E pegava suas regras de volta novamente
Uma vez eu me pus a perde-la
Eu vi o que tinha feito
Reverenciei e joguei fora as horas
Do seu jardim e sol
Então eu tentei quere-la
Virei para ver o choro dela
40 dias e 40 noites
E isso ainda desce sobre mim
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Fábio Camelo
A Primeira - Parte IV
PROBLEMAS COM A CÂMERA
A música era triste. Coincidência ou não, a trilha sonora que rolava dentro do carro, naquele instante de apreensão, era algo down, tristonho. Para não dizer funesto.
Pouco antes de entrarmos em Feira de Santana, Ricardo descobriu uma pane na parte elétrica da sua Canon (“Primeiro parou o foco automático, depois começou a dar erro se eu mexia no zoomâ€. Foi o que ele me explicou mais tarde.). Cara, eu juro que percebi o mundo dele ruindo naquela hora, juro. Era como se a viagem houvesse terminado para o nosso fotógrafo – e mal – antes de ter começado de fato. Dava para imaginar, era a sua arte que estava comprometida. Seu dom não encontraria instrumento para se exercitar: sim, Ricardo perdera um de seus órgãos. E, no meio da estrada, não havia perspectiva de doadores.
Tudo isso passava pela minha cabeça, que tentava simular o que se passava na cabeça dele. “A viagem perdeu o sentidoâ€, pensei. “A viagem perdeu o sentidoâ€, ele falou. Velho! Depois dessa, por mais que eu me mexesse, não encontrava mais posição confortável naquele banco de automóvel. Estávamos na parte de trás, ele e eu. Ele, com a câmera na mão, realizando uma série de testes, a expressão cada vez mais grave; eu, com a maior cara-de-pau, tomando notas, o desconforto crescente. Já tinha percebido à léguas que palavra alguma o consolaria.
E eu tinha uma vantagem em relação a todos ali no carro. Fabinho, Henrique e Ricardo dependiam de aparelhos que, caso falhassem, poderiam interromper por completo os seus trabalhos: o sistema de som do veÃculo (o toca-discos…), a filmadora, a câmera. Eu, que só utilizava um bloco de notas e uma caneta, ainda que não os tivesse, contaria com a memória que, embora deficiente, seria capaz de, mais tarde, ajuntar algumas palavras e passá-las adiante. Essa “vantagem†me torturava…
Mas, a viagem seguiu assim mesmo. E ficamos lá, os quatro, à espera de um milagre.
MARINHEIROS…
Erramos feio o caminho. Na tentativa de alcançar a BR-116, Fabinho, que conduzia o seu Quase-CrossFox preto na ocasião, pegou um retorno que nos levaria de volta a Salvador (Deus é mais!), provavelmente orientado por algum dos desorientados que o acompanhavam. A função de navegador era revezada por todos, mas, cá pra nós, muito mal desempenhada. Sonhadores, nossos pensamentos estavam longe, misturados com a paisagem; ninguém, mesmo que inconscientemente, queria ficar “viajando†no mapa. E olhe que, como vocês vão poder conferir depois, foi melhor assim. Muito melhor! Mas, não houve jeito; foi preciso retornar um trecho. Achei até bom, porque pude perceber os muitos espigões que pululavam por Feira de Santana.
Paramos para pedir informação a um homem que seguia com sua bicicleta. Falando de BRs como quem trata de ruas e avenidas, indicou-nos um viaduto e, com alguma precisão, nos disse que Serrinha distava dali 70 quilômetros (Serrinha fica no caminho para Tucano). Coordenadas tomadas, prosseguimos com a viagem.
DIA DOS MAÇONS
Na estrada, um outdoor me chamou a atenção. Dizia mais ou menos o seguinte: “20 de Agosto. Dia dos Maçons. O único dia em que eles fazem questão de aparecerâ€.
RUMO A TUCANO
Parecia que agora acertávamos. O problema (Para mim não era problema algum, pelo contrário, deixava a viagem mais instigante. E também aumentava o consumo de combustÃvel…) eram os muitos desvios, encruzilhadas e trocas de pista; ao menor descuido, o carro enveredava pelo caminho errado. Ricardo teve a cautela de organizar um roteiro, mas este somente foi seguido nos primeiros quilômetros.
Enquanto passávamos por Santa Bárbara, Serrinha, Teofilândia e Araci, a caminho de Tucano, ele insistia com a sua câmera: girava ali, apertava aqui e nada. Girava lá, apertava cá e nada. Girava, apertava e nada. E nada. E nada. Nada! Oh, aflição!
Intimamente, todos torciam por que ela voltasse logo a funcionar. Tenho certeza!
Como não haveria paradas nesse trecho, o jeito era cada um se entreter como podia: entre uma tentativa e outra de fazer sua câmera voltar a funcionar, Rabello estudava enquadramentos com o auxÃlio das mãos; meditamos sobre o formato da Bahia, seus limites, que muito se assemelham aos do Brasil (Obra do acaso? Ou algo deliberado? Ainda não consegui qualquer informação sobre esse fato, mas, tão logo a encontre, será postada aqui no blog. Se o leitor souber algo a respeito, e quiser colaborar, por favor, entre em contato conosco!); falou-se em Teoria dos Fractais para explicar o caso. Até o biscoito Maria foi objeto de reflexão (!): uma certa empresa alimentÃcia conseguiu, após 134 anos, atualizar a “iguariaâ€, deixá-la com um aspecto mais “século XXIâ€: agora, o biscoito pode ser encontrado em três sabores Zero trans – tradicional, chocolate e baunilha –, e houve uma modernização discreta no seu desenho. Mas, claro, ele ainda permanece redondinho, redondinho. Um clássico!
Por falar em biscoito Maria, alguém reclamou do desconforto causado pela relativa onipresença dos sacos de compras. A solução, deram-na imediatamente: comer uma parte, para esvaziar o carro. Como ando meio natureba, aquelas embalagens de biscoitos, chocolates, salgadinhos e afins me deixaram um tanto perturbado. Pareceram transfigurar-se todos em exemplares da muitas vezes estranha culinária chinesa: uma aglomeração de vermes, insetos e outras bizarrices vivas, que se remexiam, repugnantes, enquanto não eram devoradas por algum insano (O que é a cultura, minha gente!). A alucinação durou pouco. Muito pouco até; logo parei com a frescura e me entreguei aos prazeres, fatais, da comida industrializada. Só tem tu, vai tu mesmo! Humm…





