Os quatro “termômetros†instalados dentro do carro começaram a suar, o que indicava elevação da temperatura. Sua leitura era bastante óbvia: quanto maior fosse a quantidade de lÃquido excretado, maior seria a temperatura ambiente registrada (ou vice-versa). E, como a transpiração coletiva era intensa, o calor, “deduzia-seâ€, beirava os limites do suportável (Me fez tirar a camisa! E posso dizer que, no meu caso, isso significa muito!). O sol já ia alto, num dia sem nuvens, e o próprio clima do local contribuÃa para aquela quentura (Some-se a isso o aquecimento generalizado do planeta…). Resolvemos, então, que pararÃamos no primeiro lugar que surgisse, tamanha a nossa necessidade de ar fresco.
Descemos em Jorrinho, sem saber onde estávamos; a localidade não constava no mapa (No nosso mapa!) e foi necessário perguntar aos nativos que pedaço de chão era aquele (Detesto ter que fazer isso. “Qual é a desses playboys? Pensam que a gente mora no nada, é?†– segundo imaginava, era isso o que lhes devia passar pela cabeça com uma pergunta dessas.). E o ar não estava fresco…
Circulamos por um largo que descobrimos ser a praça principal. Era rodeada de “bares-restaurantes-pizzariasâ€, quiosques de sorvete e barracas de artesanato – ou de artigos Made in China. Aquilo ali deveria ser, para a população local, a ferveção dos finais de semana. Literalmente: a praça ficava abaixo do nÃvel da estrada, o que dificultava a circulação do ar, e, como se já não bastasse aquele calor dos diabos, havia ainda quem estivesse disposto a cozinhar as carnes debaixo de chuveiros de água termal.
Reparei com curiosidade como os homens e mulheres ali tinham os corpos bem cuidados. Acredito que aproveitavam a oportunidade – única? – para se exibir em trajes de banho. (Rá! “Trajes de banhoâ€! Minha avó tem outro nome pro que se usa hoje em dia, rapaz…) De fato, aquela pracinha devia estar para eles como a Praia de Copacabana está para os cariocas, ou o Porto da Barra está para os soteropolitanos – se não quisermos sair da Bahia.
Um Calor Dos Diabos
Fotos - Salvador-Canudos-Paulo Afonso - Parte I
“Um bom fotografo precisa apenas de uma lente 50mm e um bom par de pernasâ€
Tá, já me disseram para eu nunca começar um texto parafraseando alguém, mas foi primeira coisa que passou em minha cabeça quando percebi que minha lente havia quebrado. Mentira, essa foi a segunda coisa, a primeira foi “P&%&*! Que P#*%*?#!!!â€.
O falecimento aconteceu por partes, o primeiro órgão a parar foi o auto-focus, mas tudo bem, quem precisa de auto-focus? (alguém com 1.0 de miopia, talvez?!)
Nesse ponto da viagem estávamos saindo de Feira de Santana e um mundo de campos e morros se apresentava, tudo tão amplo que meus olhos não enquadravam. Para isso, saquei minha lente mÃope, coloquei na posição grande angular e… e… nada! A coitada perdeu mais uma função, o zoom. Agora éramos eu, minha câmera, uma lente sem foco que só funcionava na posição 50mm e um monte de lágrimas.
Só para ilustrar a situação, uma lente 50mm é equivalente mais ou menos a visão de um olho humano, aproximadamente 60º, bem menor que o ângulo dos dois olhos, que por sua vez é menor do que minha lente deveria proporcionar. Poderia descrever todas as propriedades ópticas da lente, mas isso não mudaria o fato de que eu estava caolho diante de um horizonte perfeito.
Voltando a frase, que atribuÃram a Cartier-Bresson, não sou bom fotografo (mas chego lá), minhas pernas não são lá essas coisas (e não vão mudar). Pelo menos tinha a bendita 50mm.
Todo o processo fotográfico foi invertido na minha cabeça, antes de enquadrar eu tinha que pensar no corte que a foto teria, o que mudava também a exposição caso fosse cortar as nuvens. E o foco… ficou guardado na minha gaveta com sua armação flutuante em um estojo muito bonito escrito “Ótica Ernesto†junto com um monte de coisa que eu deveria usar, mas simplesmente não uso.
Foram três dias de um divertido desafio. Para cada foto panorâmica que perdia, ganhava uma com um novo enquadramento que provavelmente não teria percebido se tudo tivesse nos conformes. E, durante todo esse tempo, ficava com medo que a lente parasse de funcionar de vez, o que ocorreu quando já estávamos em Salvador, mais precisamente na Av. ACM (Bate na madeira).
Hoje faço parte da comunidade “Vejo as coisas por um ângulo diferenteâ€.
Espero que gostem do resultado.
Ricardo
