Um pouco da Princesinha

setembro - 20 - 2008

 

Quando eu ainda era da 6ª série, no agora inexistente Colégio Drummond, em Salvador, foi realizado um trabalho escolar que tinha Feira de Santana como tema. Nada aprendi sobre a cidade na ocasião. E agora, quase dez anos depois, continuo ignorando praticamente tudo o que lhe respeita. Sei apenas, da época do vestibular, que o município fica situado no agreste baiano, região intermédia entre a Zona da Mata e o sertão, apresentando características também medianas de vegetação e de clima. Além disso, recordo algumas palavras-chave: BR-324, observatório, Iguatemi, Feiraguai(!), micareta, “Princesa do Sertãoâ€. Acho que só: peças de informação soltas, desconexas.
Das raras vezes em que viajo (Raras! Oh, lástima! Oxalá pegue eu muita estrada ainda nesta vida!), apenas passo por Feira de Santana. Nunca fiquei para uma devassa. Embora os feirenses, os que conheço, empreguem à voz um tom caçoísta sempre que se referem ao “tédio†da cidade natal, tenho vontade de conhecer suas ruas, avenidas e praças, os pontos principais, um pouco da rotina e da gente de lá. Pessoalmente, acho impossível que não tenham nada para mostrar, nada do que se orgulhem. Afinal estamos falando da 2ª maior cidade da Bahia, 31ª do país.
Aí vão algumas informações sobre Feira, pescadas desse oceano de dados (incertos) que é a internet (para, quando perguntarem, você não dizer que só tem “peças de informação desconexasâ€):
A Cidade Comercial de Feira de Santana – desde 1938, apenas Feira de Santana – foi elevada à categoria de cidade em 16 de junho de 1873, 54 anos depois de tornar-se um povoado. Segundo a sua história, nasceu de um território desmembrado do município de Cachoeirinha, a Fazenda Sant’Anna dos Olhos D’Ãgua. Por ali, passavam tropeiros, viajantes e boiadas vindos do alto sertão baiano e de outros Estados, demandando o porto da Vila de Cachoeira (ou Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira do Paraguaçu! Ufa!). Com o movimento, o comércio de gado foi-se firmando na região, e prosperou; tanto que o Imperador D. Pedro II visitou as suas famosas feiras.
Entre legítimos e adotados, FS tem hoje 571.997 filhos (segundo estimativa feita em 2007) distribuídos por seus mais de 80 bairros e 8 distritos, que totalizam uma área de 1.339km² (Salvador tem 706.799km²).
Distante da capital 108km, Feira é cortada por três rodovias federais (BRs 324, 116 e 101) e quatro estaduais (BAs 52, 502, 503 e 504), sendo o maior entroncamento rodoviário do Norte e Nordeste. A posição privilegiada permite a convergência de pessoas, mercadorias e grana para o município. Conquanto sejam suas atividades econômicas bastante diversas, o comércio – uma vocação ancestral – ainda é o setor que, juntamente com o de serviços, mais emprega. Mas, os setores primário e secundário também estão presentes em Feira. Só a atividade industrial responde por cerca de 40% do ICMS arrecadado pelo município (o comércio arrecada mais de 50%). Este ano, Feira de Santana já rendeu ao Estado, em ICMS, R$ 229.852.921,23, perfazendo uma média/mês de R$ 28.731.615,15 entre janeiro e agosto (os números eu retirei do site oficial da SEFAZ, somei e dividi, para obter o total e a média do recolhimento). Há, no Centro Industrial do Subaé, 24 diferentes ramos de atividade econômica, que vão desde a manufatura de alimentos e calçados até a metalurgia e a química. Recentemente, uma fábrica da Nestlé entrou em funcionamento no CIS, e já se encontra em processo de expansão.
(Nós passamos por ela, mas, nem a câmera de Ricardo nem a filmadora de Henrique registraram o momento. Foi Fabinho quem salvou com a sua “Canon PowerShot A 430â€. Devíamos era ter parado para uma excursão! Imagine: chocolates, biscoitos, Chandelle…Humm! Tudo o que não presta: cuidado, gente, que, hoje em dia, comer também mata, viu?!)
A agropecuária teve sua importância em relação às outras atividades econômicas diminuída a partir da década de 70, com a vinda do setor industrial e conseqüente urbanização do município (a maior parte da população feirense é, hoje, urbana).
Feira de Santana conta com uma universidade própria, a UEFS, que mantém 27 cursos de graduação, um corpo discente de mais de 9 mil alunos, museus etc. etc., além do Observatório Astronômico Antares, fundado em 1971.
Um dos museus que mais despertou a minha curiosidade, quando das pesquisas para escrever “um pouco†sobre FS, foi o MAC – Museu de Arte Cotemporânea. O MAC, instalado no antigo prédio do Museu Regional de Feira de Santana (criado por Assis Chateaubriand e cujo acervo foi transferido, em 1995, para o Centro Universitário de Cultura e Arte da UEFS) é o primeiro museu high-tech do Norte-Nordeste: através da internet, o visitante pode acessar os acervos dos principais museus do planeta.
Além disso, há para se conhecer em Feira o Mercado de Arte Popular e, claro, o/a Feiraguai (que não consta do site oficial da prefeitura), onde você encontra o que de melhor se “importa†dos hermanos paraguaios. (Eu tenho uma amiga que todo final de semana voltava de lá com um relógio diferente.)
Feira de Santana também tem as suas festas típicas populares, como a micareta (primeiro carnaval fora de época do Brasil), o São João de São José (Hã?), o São Pedro em Humildes, o Festival do Violeiro, a Corrida de Jegues (Essa é em novembro! Dá pra conferir, hein?!), os folguedos da Festa de Sant’Anna, enfim. Quem quiser bater uma carne-de-sol ou aquela maniçoba, mesmo que esteja só de passagem, a Princesa está a espera! E piscando o olho!
Thácio Faria.
 
(Estas informações, como outras tantas do blog, foram selecionadas a partir da internet e, claro, a realidade do município pode ser muito mais desbotada do que sugerem as cores da imaginação alimentada por todos esses dados. Além do mais, não abordei os problemas que, certamente, existem na cidade. O que não impede ninguém que esteja disposto a se arriscar pela BR-324 de ir lá e tirar as suas próprias conclusões. Eu, de minha parte, espero conhecer Feira tão logo suja a oportunidade, suas virtudes e suas mazelas. Vou até sugerir que o Projeto Fuga faça um breve pouso dá próxima vez que por lá passarmos. AH! E qualquer “peça de informação†desencontrada, por favor, nos comunique para que a correção seja feita, quando for o caso. Obrigado!)
 
“Já que desejas, porém, viajar, faze-o como uma experiência para dentro, descobrindo o mundo íntimo profundo, e aí fruirás da plenitude que nunca se acabaráâ€.
 
(Da obra do feirense Divaldo Franco: Momentos de Coragem. Ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador, BA: LEAL, 1988.)
 

 

A Primeira

setembro - 14 - 2008

PARTIDA

Saímos da casa dos Três Porquinhos - por enquanto, situada no bairro da Amaralina, em Salvador - com três horas de “atraso”. Não poderia ser diferente: as mochilas ficaram para ser organizadas na última hora e já passava das 21h quando finalmente prontas.

O combinado era ralar as três da matina, no dia seguinte, mas o sono pesou um pouco mais (o de Henrique um pouco mais ainda…). Resultado: só batemos as portas e partimos as 6h30. E ainda havia o supermercado!

O projeto era passar três dias fora (sábado, domingo e segunda-feira), gastando o mínimo possível, claro. Calculamos que o mais barato, e prático, seria levar a comida daqui mesmo de Salvador. O Bompreço 24h da Pituba era, então, a opção mais próxima (só não sei se a mais em conta…). Gastamos mais uma hora com as compras e com o café da manhã. Tudo dentro do carro, nós e a “comida” encetamos viagem ao som da “Concrete Jungle” de Bob Marley.

OS TRÊS PORQUINHOS

Os “Três Porquinhos”, epíteto atribuído pelos chegados (os amigos, não os “chegados”…), são Ricardo, Fábio e Henrique, meus camaradas e companheiros de fuga. Ricardo, que pode ser identificado pela precoce, mas estilosa, cabeleira grisalha, é o nosso talentoso fotógrafo; Fábio, ou Fabinho, acumula as funções de programador do site Projeto Fuga, 2º fotógrafo e jukebox humana (grande conhecedor que é da obra dos mais diversos músicos, foi incumbido de organizar e resenhar a trilha sonora da nossa viagem). Ele também foi o corajoso que cedeu o carro (um Fox preto, duas portas, metido a CrossFox) e, muito despojado, bancou o combustível. Gente fina, não?!

Henrique é o único entre nós que pode realmente ser chamado “surfista” (gostamos de pegar umas ondas) - o resto é tudo haole. É o encarregado das filmagens, edição e montagem dos vídeos. Saca de Premiere, After Effects etc etc.

Eu sou o Thácio, e não faço parte da célebre tríade; cheguei depois na casa. E já saí. Só fiquei no apartamento de Amaralina por cinco meses. Era muita louça para lavar…(risos) Sou eu quem reportará a Fuga.

BR-324, INÃCIO DA FUGA

O cachorro atropelado, encontrado logo de início, poderia, no contexto da BR-324, ser tomado como sinal de mau augúrio. Mas, mesmo estando nós na referida estrada - cuja fama é por todos sabida, bastando, para a confirmar, assistir aos noticiários - nossa fé no sucesso do projeto, ao contrário daquele cão, permaneceu intacta.

O PROJETO

Bem, o projeto. Nem lembro mais do momento abençoado em que foi concebido este projeto. E nem o poderia; já me apresentaram pronto! Claro que o aceitei na bucha. Óbvio.

Muito óbvio.

Esquematicamente, o Projeto Fuga consiste em escolher uma cidade do mapa, por enquanto - e necessariamente - da Bahia. Bahia com “B”. De “Berço”. Pronto, uma simplicidade. Decidiu-se por Paulo Afonso. E não se decidiu mais nada.

Já metafisicamente, o Projeto é…

É…

É…

“Inenarrável”.

Na prática, o projeto era grana, que considero pouca - e podia ser menos! - e um carro. E acabou-se.

AINDA NA BR-#@$

Pouco e pouco, o verde ia engolindo o concreto das casas simples. Mas havia atividade na estrada. Uma quantidade razoável de carros de passeio e caminhões circulava - um caminhão achamos parado/estacionado em uma das pistas de rolamento.

Surgiram as primeiras fazendas de gado (Eu não estava na Ãndia, mas vi bois em fila indiana!). Rabello (Ricardo), que não come carne (e se amarra num Elma Chips), nos falou do tempo em que vendia o produto. E vendia bem! Agora, de qual discurso lançava mão…

Plantações de banana e cana-de-açúcar passaram por nós. Vimos seres humanos cultivando a terra, as sacas de sementes dispersas; até Feira de Santana, não me lembra ter visto qualquer máquina agrícola. Num dos campos de cana, um espantalho! Dá pra acreditar que eu nunca tinha visto um? Coisa de quem não sai muito do próprio bairro!

O asfalto, na BR-324, era desbotado - e tinha buracos. O verde, que outrora tragara o concreto, principiava regurgitá-lo, em novas conformações; era Feira de Santana que se aproximava. Antes de chegar na “Princesa do Sertão” (perífrase inaugurada por Ruy Barbosa, em 1919), coiós de taipa prenunciavam uma realidade penuriosa que se encontra perdida nos recantos da Bahia e do Brasil, e que nos seria revelada ao longo de nossa pequena aventura. Fabinho, sabe-se lá por qual iluminação profética, anunciou que aquela viagem transformaria as nossas vidas. E estava certo.

Thácio Faria